
Deixou a lição da escola pra fazer depois de comer o café da manhã. Empurrou a toalha descobrindo um pedaço do tampo branco da mesa da cozinha, e ali abriu o caderno, espalhou o lápis e a borracha. Parei pra olhar distraída entre os goles de café, encostada na pia, de costas pra janela aberta que mostra o jardim seco. O corpo de menino ainda vestido com o pijama, ajoelhado na cadeira, se dobra sobre as letras que vai desenhando, que vai dizendo em voz alta, interrogativo pra si mesmo. Vou me perdendo nos movimentos e na voz dele, no café, no vento leve que me toca as costas, no morno da manhã onde tento acordar. E de lá onde fui parar, lentamente retorno quando percebo que agora ele se dirige a mim, sem levantar o rosto nem parar o que faz: isso não é fácil. Você também achou difícil um dia, só não lembra mais porque acostumou.
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