
Ela ergueu vagarosa o corpo da cadeira e se ajeitou na ponta do assento. O preto da carapaça do bicho refletia a luz que vazava pelas folhas da árvore defronte. Começou a empurra-lo com os garfos de um lado pro outro. Pressionava as asas. Empurrava. Numa tentativa de fuga frustrada, o besouro inverteu-se. Ainda mais frágil. O homem continuava a fumar em silêncio, mas franzia um pouco o cenho, o que provocou o sorriso da moça. Ela segurou o bicho levemente com as pontas do garfo na altura da cabeça e começou a sentir o corpo luzidio com a ponta da faca. (...) Em nenhum momento ele tentou segurar as mãos dela. Acompanhou, enojado e resistente. Ela sorria e acreditava muito científica que o crescimento era causado pela impossibilidade do grito. Um bicho que não podia gritar inchava mudo. Dividia seu regozijo entre o que causava ao besouro e ao homem, desordenada e cega.
2 comentários:
"Um bicho que não podia gritar inchava mudo."
Por algum motivo eu acho essa frase aterrorizante.
que bom ter vc de volta!
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