Descontínuo Reverso

Fotografia: Chema Madoz (Espanha, 1958).

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Interior 3

Foto: Sergio Larrain (Clile, 1931). Valparaíso, Chile, 1963.

Facilitado pelos portões de grades e muros baixos que ainda resistem nos bairros, é perpetuado um antigo e tácito acordo entre senhoras: o direito de levar mudas, flores e ervas que possam ser alcançadas da calçada. Mas sempre na sua vizinhança. Não são bem vistas as que extrapolam fronteiras. E muito menos as que depois de visitadas, dificultam o acesso livre. A elas serão negados cravos, rosas, hibiscos, mimos dobrados, os maços de cheiro-verde, chuchus, couves e buchas. E principalmente os conhecimentos acumulados sobre todas as plantas comuns entre as casas, os diferentes jeitos de preparo, usos, proveitos. Foi flagrando dona Ignez contando as folhas arrancadas do meu manjericão verde de rama comprida que pendia balançante e convidativo fora de seus limites, terminando a conta em 12 das maiores, que soube da propriedade sedativa da erva: faço chá pra dor de cabeça e gargarejo pras aftas. Continuou cortando as folhas enquanto falava. Achava que tinha ouvido qualquer coisa sobre ser boa pra mordida de cobras e escorpiões. Mas aí já não sabia como preparar, se eu quisesse, ela perguntava pra Dona Ana da esquina de baixo. Eu ri me lembrando em voz alta de ter lido que, em algum dos séculos passados, diziam que quem cheirasse muito manjericão ficava com o cérebro cheio de escorpiões. Ela gostou da história. Ia contar pra Dona Ana. E contei que também é chamado de basilisco porque foi alimento de uma deusa-serpente chamada Basilisk, que matava com o olhar: não mordia não? Não, só olhava. Ela quietou os movimentos esparolados pra me olhar de um jeito a me fazer entender que, mesmo com minhas contribuições pouco práticas, eu acabava de firmar o acordo.