
Despencou do maleiro do guarda-roupa a coberta de lã cinza axadrezada em verde e preto. Nas pontas dos pés abria aquele maleiro e de imediato o mal guardado lá lhe vinha por cima. Enquanto arrumava a cama pra dormir, com a luz fraca do abajour acesa no criado-mudo, percebeu que tinha silêncio. Poucas vezes o barulho ininterrupto daquele corpo que funcionava do lado de dentro dos óculos lhe permitia pensar que ele não era ouvido desse lado onde o direito do corpo vivia, com os óculos sempre metidos na cara. Foi dessas percepções bruscas daquilo que desde a infância vamos descobrindo. Que ocorrem com certa freqüência durante o percurso. Parou ali, com as pontas extremas da coberta seguras nas mãos imóveis, enquanto o pano pesado desdobrava lentamente, caindo suave, os olhos revirando pra cima e pros lados, esperando. Constatou que realmente tinha silêncio. Insistiu na constatação até que este invisível surpreendido lhe apertou as formas de carne. Aí se lembrou, continuando a onda de assombros, porquê essas consciências vão e vem, não sendo passíveis de convivência. Só se pode lembra-las. Lembrar de que existe o que imobiliza no mais simples, e assim saber valioso o óbvio.
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